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O fim da Bélgica e a barba

Depois de ter visto o primeiro vídeo institucional do Cortissa, meu amigo Julien escreveu lá de Paris comentando que o projeto de barba que está crescendo no meu rosto lhe fez lembrar de uma campanha anunciada recentemente pelo ator belga Benoit Poelvoorde, solene desconhecido no Brasil, mas um dos atores mais conhecidos em seu país.

Antes de falar sobre a campanha propriamente dita, algumas informações não necessárias (Cortissa também é cultura). Existe uma tensão na Bélgica entre a população dos Flandres (ao norte), onde se fala uma variação do holandês (flamengo), e a população da Valônia, ao sul, onde se fala o francês. Flandres, que está com a economia em dia, tem interesse em se separar da Valônia, onde o desemprego só cresce ano após ano.

Mapa tirado daqui.

Desde 2007 o Rei Alberto II tenta costurar, sem sucesso, um governo de coalizão que satisfaça os interesses das populações dos Flandres e da Valônia. O atual primeiro-ministro Yves Leterme permanece no poder somente até que Johan Vande Lanotte, um mediador nomeado pelo rei, consiga chegar a um consenso com os sete principais partidos belgas a respeito de como será o “novo governo”. Mas as negociações estão tão difíceis que o próprio Lanotte já tentou se desvencilhar do encargo alegando falta de vontade política das partes envolvidas para solucionar o impasse.

O irônico disso tudo é que o lema oficial da Bélgica é “a união faz a força”...

Voltando ao ator Benoit Poelvoorde, a ideia dele é que os cidadãos belgas deixem a barba crescer até um governo com legitimidade para representar toda a população belga assuma o poder. Veja o vídeo.


A iniciativa é proposital e evidentemente cômica, até porque Poelvoorde tem uma forte queda para o humor. Mas o que eu achei curioso foi a “reativação” da barba como instrumento de protesto. Não é um sacrifício tão grande, por exemplo, quanto a greve de fome dos militantes cubanos contra a ditadura terrorista dos irmãos Castro. Em contrapartida, por experiência própria, deixar a barba crescer requer paciência, autocontrole e perseverança dignas de um monge budista. Aliás, talvez até maiores, pois nunca vi um monge budista de barba.

Num país como Portugal, por exemplo, as mulheres poderiam contribuir automaticamente com uma campanha desse tipo, ainda que de maneira singela, mas na Bélgica tudo indica que a tarefa piniquenta ficará só a cargo dos homens mesmo (essa piada foi péssima, eu sei, mas não pude evitar).

No que diz respeito à minha barba, a aposentadoria temporária da gillette não teve relação com os conflitos políticos belgas, embora eu tenha toda simpatia pela causa de Poelvoorde. Afinal, um país que produz quadrinhos, chocolate e cerveja com padrões de qualidade tão elevados não pode desaparecer.

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