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Frank Zappa: 70 anos hoje

Ninguém se torna fã de Frank Zappa pelos métodos, digamos, convencionais. Afinal, ele não toca nas rádios, em trilhas sonoras de filmes e em festas de casamento. Também não serve de música ambiente para jantares em família, elevadores ou consultórios médicos. Por isso, quem gosta de Zappa geralmente se lembra nitidamente quando e como teve o primeiro contato com o humor ácido, os solos impossíveis, a crítica implacável e a poesia de melodias às vezes rebuscadíssimas, às vezes lindas justamente por causa da simplicidade.

Nesse aniversário de 70 anos de Frank Zappa não vou ficar babando ovo, até porque volta e meia já faço isso. Copiando descaradamente o conceito do excelente livro organizado pelo mestre Fabio Massari, Detritos Cósmicos (Editora Conrad – 2007), vou contar como eu me tornei fã de um dos maiores compositores do século XX (olha eu babando ovo...), que conseguiu dar vazão a todo o seu talento e criatividade, além de ganhar o respeito dos maiores músicos, maestros e astros pop, mesmo batendo de frente com os big shots da indústria fonográfica.

O ano era 1987, eu tinha 15 anos e começava a me interessar mais pelas bandas que influenciaram o som tocado na rádio do que por ele propriamente dito. Comprar um LP era um investimento e tanto para os meus padrões da época, então o negócio era pedir emprestado o álbum para algum amigo descolado (geralmente para o irmão mais velho deste amigo) e gravar uma fita K7. A maior parte do meu “arsenal”, composto pela santíssima trindade Led, Sabbath e Purple estava justamente em fitas K7, mas de vez em quando eu economizava mesada suficiente para comprar um LP.

No ano seguinte eu estava numa fase totalmente Deep Purple. Tinha ouvido In Rock pela primeira vez e estava pirado naquele som. Ganhei de aniversário um vale disco da finada Hi Fi e o troquei sem pensar pelo House of The Blue Light, que havia sido lançado no ano anterior. Sou ateu até provem o contrário, mas se existe um Deus e se ele realmente escreve certo por linhas tortas, esta foi a única manifestação dele em minha vida até o momento.



House of The Blue Light é um bom disco, sem dúvida. Tem Bad Attitude e Hard Lovin’ Woman e outras músicas bacaninhas, principalmente se comparado ao lixo que faz sucesso hoje em dia. Mas para quem estava esperando algo parecido com In Rock e Machine Head, foi um banho de água fria.

Já no segundo semestre de 1989 eu comecei a fazer Intergraus à tarde. Saía do Logos, na Rebouças, comia alguma coisa por ali (geralmente no Oregon) e ia para o cursinho. Às vezes para economizar o dinheiro do busão ou simplesmente porque não estava afim de ficar meia hora enlatado no trânsito, acabava subindo a pé para o Intergraus. Numa dessas vezes descobri o Sebo de Elite da Rua Lisboa, que eu nem sei se ainda existe, e imediatamente pensei em dar um destino ao meu House of The Blue Light.

No dia seguinte levei o dito cujo para o Logos, matei a última aula do Scarlato e fui para o sebo trocá-lo por algo melhor. Fiquei um bom tempo escolhendo, afinal eram muitas as alternativas entre Hendrix, Creedence, The Who e outras pérolas que eu ainda não tinha. Mas, por alguma faceta obscura do meu complexo de culpa, que na adolescência deitava e rolava, me sentia mal em trocar um Purple. Embora não tivesse gostado daquele LP, livrar-me dele soava quase como uma heresia e por azar na loja não havia nenhum outro do Purple que eu ainda não tivesse. Estava criado um “big dilema”. Foi quando puxei uma das centenas de capas que já havia vasculhado naquele começo de tarde e me deparei com isso:



Frank Zappa... Frank Zappa... Onde eu já tinha ouvido este nome antes? Ah!
Frank Zappa and The Mothers were at the best place around.
But some stupid with a flare gun burned the place to ground.
Smoke on the water and fire in the sky!

Pronto! Dilema resolvido! Meu House of The Blue Light se transformou em Hot Rats com uma espécie de benção do Deep Purple, o que na minha loucura me pouparia de qualquer espécie de culpa.

À noite, depois do jantar, pus o LP do Zappa para rodar na vitrola e ouvi com o fone de ouvido para não incomodar meus pais, que estavam assistindo TV. Quando comecei a ouvir Peaches in Regalia pensei com minhas espinhas: “Que música é essa?” Música clássica? Rock instrumental? Jazz? Não, não, não. Era isso e muito mais, mas sem ser nada disso ao mesmo tempo. Era Zappa! Depois, Willie the Pimp: um riff eletrizante de violino (de violino?! sim, de violino!) que ganhava a companhia de uma guitarra nervosíssima e versos urrados por um cara que eu imaginava ser o próprio Zappa e só em 92 fui descobrir tratar-se do recém falecido Captain Beefheart. E tinha mais: Son of Mr. Green Genes (que diabo de nome de música é esse???), Little Umbrelas, The Gumbo Variations (sen-sa-ci-o-nal!), It Must be a Camel...

A partir daí o processo foi irreversível. Zappa se tornou um vício, uma companhia para todas as horas. Mais de 20 anos depois, cada vez que escuto qualquer uma dessas músicas descubro coisas que ainda não tinha notado. O mesmo vale para todos os outros 38 álbuns dele que estão na minha coleção e provavelmente para os outros 48 que um dia ainda vou comprar.

Depois disso tudo, continuo achando House of The Blue Light bem fraquinho, mas um dia ainda vou comprá-lo novamente, como que para dizer “obrigado”.
Information is not knowledge. Knowledge is not wisdom. Wisdom is not truth. Truth is not beauty. Beauty is not love. Love is not music. Music is the best...
(trecho de Packard Goose, faixa de Joe’s Garage Act III)

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