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Vou-me embora para o México

Ontem, enquanto passava horas preso no trânsito nas minhas idas e vindas por São Paulo, ouvi uma reportagem na CBN daquelas que dão desgosto na gente de morar no Brasil e, por tabela, de ser brasileiro. Um consultor do mercado automotivo dizia que a versão "básica" do City, modelo da Honda que só é comercializado em países emergentes e se aproveita da plataforma do Fit para economizar no custo de produção, é vendida no Brasil por aproximadamente R$ 57 mil.

Porém, o mesmíssimo veículo, também produzido na fábrica em Sumaré, no interior de São Paulo, é exportado para o México, a milhares de quilômetros de distância, e vendido por um valor equivalente a R$ 28 mil, menos da metade do preço brasileiro, incluído o "frete". Frete este que seguramente é cobrado do consumidor residente na própria Sumaré...

Vou repetir e desenhar, porque é tão absurdo que talvez você não tenha pescado: um automóvel fabricado 100% no Brasil é vendido no México por menos da metade do preço praticado em seu país de origem.


Constatada está disparidade de valores surreal, ficam algumas dúvidas no ar:

a) Será que a Honda mexicana é uma ONG sem fins lucrativos que vende veículos a preço de custo para a população carente ou será que a margem de lucro com a qual a Honda brasileira trabalha é absurdamente gigante???

b) Será que o governo mexicano se abstém deliberadamente de tributar a fabricação e comercialização de veículos automotores ou será que a carga tributária brasileira é escorchante ao cubo???

c) Será que algum governo brasileiro, um belo dia, abrirá mão de parte da receita que a indústria automotiva proporciona para investir em ferrovias, transporte marítimo, transporte fluvial e transporte público urbano de qualidade???

Estou citando o exemplo do City, mas o mesmo se aplica a qualquer outra montadora instalada no Brasil. Para ser justo, aí vai outro caso: um Santa Fé (Hyundai) no Brasil custa mais de R$ 120 mil, enquanto nos EUA é vendido por menos de R$ 50 mil. Aliás, lá um moleque de 18 anos que nas férias entrega jornais, corta grama dos vizinhos ou entrega pizza, consegue juntar trocados suficientes para comprar um carro usado à vista. Aqui, há financiamentos em 60 meses, leasing, alienação fiduciária e o escambau a quatro...

Enfim, nessa Pasárgada que é o Brasil, felizes são as montadoras, os bancos, os cartórios, as Controlar da vida etc. A nós, pobres mortais, só resta pagar nossos impostos e, como já dizia Raul Seixas, ficar "com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar...". Ou alguém aí vai se rebelar e não comprar mais automóveis???

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