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"You Can Call Me Al" - Paul Simon



Em 1987 essa era uma das músicas mais tocadas no meu então ultra-moderno walkman Sony. Foi um ano bem bacana aquele. Saí da escola onde estudei a vida inteira e entrei em outra que só tinha colegial. Ou seja, somente os alunos que por coincidência tinham vindo da mesma escola se conheciam, o que colocava quase todo mundo em pé de igualdade, num ambiente novo e com colegas novos. Além disso, minha casa era a 3 quadras da nova escola e comecei a ir e voltar da aula sozinho. Hoje parece bobagem, mas na época foi um tremendo avanço.

Jibóia, Pinduca e o Queiroz, todos mais velhos do que eu, me adotaram como uma espécie de mascote da turma. Qualquer merda  besteira que eles fizessem, e não eram poucas, eu achava o máximo. Foi uma espécie de simbiose interessante aquela: eu queria fazer parte do mundo "adulto" e eles precisavam de uma platéia fiel e pouco exigente para se auto-afirmarem. O Jibóia sabia tocar a introdução de Sunday Bloody Sunday na bateria que tinha no quarto, o que para mim era quase como ser amigo do Keith Moon. Além disso ele tinha uma irmã mais velha que "inadvertidamente" usava shorts sem calcinha por baixo, o que eu pude constatar ao vivo e em cores numa tarde enquanto assistíamos um filme qualquer na casa dele.

O Pinduca era o tipo mal-humorado engraçado, bem no estilo Cameron, amigo do Ferris Bueller. Ele dizia que era bisneto do Santos Dumont e eu sempre achei que fosse brincadeira. Um sábado, quando fomos comer pizza na casa dele, vi "o" chapéu pendurado na sala de jantar e uma cacetada de fotografias do aviador. Só por isso eu já considerava fantástico ser amigo dele. Mas não era só isso. Aliás, o melhor não tinha nada a ver com a árvore genealógica dele e sim com o fato do seu avô colecionar Dodges e deixá-lo guiar por São Paulo inteira, mesmo sem ter carteira de motorista (salvo engano, ele ainda tinha 17 anos). Matar aula de Química do Nelsão para tomar cerveja era algo extremamente rebelde por si só. Motorizado pelo Dodge Dart do avô do Pinduca, então, era praticamente tornar-se a reencarnação do James Dean. Tudo bem que eu nunca fui promovido ao 1º escalão, sempre sentei no banco de trás, mas não tinha do que reclamar. Afinal, em um mês de aula eu já tinha me divertido mais do que no ginásio inteiro.

E o Queiroz era meu ídolo pessoal: manjava de rock, cinema e futebol, sabia desenhar muito bem, sempre estava com alguma garota, era popular sem ser pedante e ultra simpático com os pais dos amigos, além de ter um ar responsável e uma cara de pau ímpar. Mais de uma vez consegui alvará em casa para sair com a turma graças a ele. "Fica tranqüila, tia. Vou ficar de olho nele". Também parece pouca coisa hoje, mas aos 14/15 anos convencer a minha mãe a me deixar sair à noite não era nada fácil.

Como não poderia deixar de ser, no final do ano fiquei com nota abaixo da média em 5 matérias. O profesor de Geografia me deu 1 ponto para me aprovar e eu poder fazer recuperação das outras 4 matérias, o máximo permitido. Passei as férias de fim de ano estudando Química, Álgebra, Física e Biologia e no final das contas consegui passar raspando.

O Jibóia e o Pinduca "repetiram direto" e foram para outra escola. Nunca mais soube deles. O Queiroz continuou na minha classe em 88 e acabou se enturmando com meus amigos "low profile": Doneux, Max, Cuca, Férna e Gordo. Até fizemos algumas viagens com essa turma, mas em 89 ele também acabou mudando de colégio no meio do ano para não bombar.

E me lembrei de tudo isso só porque ouvi por acaso esta música do Paul Simon  no rádio, cujo clip com a participação do Chevy Chase eu apenas descobri que existia hoje.

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