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O Gênesis, segundo Robert Crumb

Eu nunca tinha lido nenhum dos livros da Bíblia até ontem, quando terminei de ler o Gênesis. Na verdade, já tinha lido algumas passagens, mas nunca "de enfiada", como geralmente se lê um livro. Uma falha na minha formação, sem brincadeira, pois apesar de ser ateu convicto, ignorar uma obra de tamanha importância para a história da humanidade é quase imperdoável.

Mas não foi uma súbita crise de consciência cultural que me fez de uma hora para outra deixar de lado as 300 mil distrações da vida moderna para ler a Bíblia. Foi Robert Crumb o responsável por me atrair para "a palavra de Deus". Eu só conhecia o trabalho de Crumb pela capa de Cheap Thrills (abaixo), o álbum matador do Big Brother and the Holding Company, que nada mais era do que a banda da Janis Joplin. E aqui abro um parênteses.



É em Cheap Thrills que estão pérolas como "Piece of My Heart", "Ball and Chain" e "Summertime". Minha irmã tinha um LP (espero que a Bel tenha esse vinil ainda guardado em algum lugar) só com clássicos dos anos 60 que foi gasto na nossa vitrola Technics durante anos a fio. Nele, que eu me lembre de cabeça, tinha "No Milk Today" (Hermits Herman's), "Shakin' All Over" (Johnny Kidd and the Pirates), "The House of the Rising Sun" (The Animals), "San Francisco - Be Sure to Wear Some Flowers in Your Hair" (Scott McKenzie) e "Summertime" (Big Brother and the Holding Company).

Eu ainda brincava de Playmobil, passava tardes chutando bolas na parede do quital e assistindo Savamu, Urso do Cabelo Duro e Sítio do Pica-Pau Amarelo, mas já "viajava" com a introdução na guitarra de "Summertime".



Essa versão, certamente mais conhecida que a original, já tinha a fórmula do contraste ("light and shade") que tornaria anos depois o Led Zeppelin o maior sucesso da década de 70. Peso e leveza ao mesmo tempo (aliás, quem nunca parou meio segundo para pensar, é daí que vem o nome "Zeppelin de Chumbo"). "Babe I'm Gonna Leave you", do Led I (também no player acima), é um ótimo exemplo disso.

Isso me fascinou a tal ponto que uma das primeiras coisas que consegui tirar de ouvido numa guitarra vagabunda comprada no falecido Mappin com o salário de estagiário foi justamente a introdução de "Summertime". Fecha parênteses.

Então, quando soube que Robert Crumb tinha lançado o Gênesis ilustrado, pensei: o que será que esse "maluco" fez com os textos bíblicos?! E hoje, depois de ler as mais de 200 páginas, em verdade vos digo: o trabalho é sensacional, capaz de agradar o Vaticano, freaks, hippies, carolas, ateus e até "gente normal" ao mesmo tempo.

Os textos quase não sofreram modificação, então o que o leitor encontra são realmente as mesmíssimas passagens de qualquer Bíblia de hotel. As ilustrações são de cair o queixo, principalmente pela preocupação em dar feições únicas a cada uma das centenas de personagens. Além disso, Crumb estudou profundamente os hábitos e costumes da época, inclusive no que diz respeito às vestimentas, para ser o mais fiel possível. Não é a toa que passou quase cinco anos trabalhando dia e noite para concluir a obra.




Entonces, se alguém está sem idéia para presente de Natal, recomendo fortemente. No Brasil, o Gênesis de Robert Crumb foi editado pela Conrad, com acabamento excelente. O meu exemplar, de capa dura, saiu por R$ 49,90, mas já livraria vi fazendo promoção por preço bem mais em conta. Há também uma edição em brochura que deve ser mais barata também.

O que eu achei do Gênesis propriamente dito? Deixo para outro dia, pois este post já ficou comprido demais. Só adianto que Frank Zappa tinha razão.

Comentários

Bel disse…
Claro que eu tenho o LP do No Milk Today! E tenho também o do American Pop, com esse Summertime (nunca achei em CD). Bem, continuo lendo o Gênesis ilustrado pelo Robert Crumb e estou mais impressionada a cada página. Como foi que eu não me dei conta da intensidade da história e da crueza dos personagens quando a li sem ilustração? Por exemplo, vocês sabem o que Jacó fez com Esaú, a mando da mãe de ambos? Então leiam!

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